24/01/2014

SAUDADES DE MANÉ DE CHICA

Cópia do convite da Missa de 30 dias de Mané
Há algumas semanas Tuparetama sepultava Mané. Era tardinha, um sol dourado deitando-se no poente espalhava sua luz sobre as pessoas da cidade e sobre o caixão pobre que acompanhavam.

Descia “Compadre Mané de Chica”, do abrigo de idosos – onde viveu seus últimos anos – ao cemitério antigo, passando pelas ruas onde viveu desde criança, sobre o tapete dourado de luz que o sol acendia nas pedras do calçamento. Tantas vezes os pés rudes e descalços de Mané pisaram estas pedras, agora estavam livres para deslizar sobre as nuvens de algum paraíso especial, que deve haver para os filhos de Deus que foram privados de tudo aqui na terra. 

Espécie de “louco” com juízo, Compadre era um tipo de figura folclórica dessas que toda cidadezinha do interior possuía, e que já não possui mais porque os tempos agora são outros, para o bem e para o mal, e uma das coisas que perdemos foi essa capacidade de adotar, tolerar e amparar como identidade cultural as pessoas diferentes ou nada condizentes com o sistema. Louco, criado por uma mãe louca, a também folclórica “Chica Doida”, vivendo de favores e doações, tal qual um São Francisco bonachão, Compadre sepulta consigo uma Tuparetama que já não existe mais. 

A Tuparetama do tempo de Mané e a Tuparetama de hoje tem muitas diferenças no tamanho, no ordenamento urbano e na infraestrutura que ambiciona (ou confunde) desenvolvimento com construção. Assim como fisicamente, também a identidade humana da Tuparetama de antes já não existe mais e por isso me pergunto se entre nós sobreviveria hoje um Mané de Chica. Percebe-se que há um embrutecimento da gente, uma agressividade crescente, uma intolerância nascente e persistente, umas chagas da sociedade “moderna” que começam a se abrir no tecido do nosso convívio: a violência, a insegurança, os assaltos, os entorpecentes, os desarranjos familiares... 

E nada é menos parecido com o jeito Mané de Chica de ser que essa nossa feição contemporânea desenhada pela Ambição. Estamos moldados e mobilizados pela ambição de poder, ambição de ter, ambição de parecer-ser, ambição de consumir e ambição de destruir o que nos desagrada ou diminui. O jeito Mané de Chica de ser se vai, deixando saudade. “Ê cumpade.... Ê cumade....” a voz grave de Mané logo cedo no portão, roupas gastas, pés descalços, barba por fazer, cigarro de fumo de rolo na mão, coçando o saco inocentemente, perguntando se tem lixo pra jogar fora em troca de algumas moedas ou de um prato de comida e com sua costumeira “cara de paisagem” sem medo de ser agredido ou repelido. 

Hoje não tem lixo pra botar fora não, cumpade, mas amanhã venha que tem um serviço aqui pra você, vamos limpar o mato que está tomando todo o quintal”. E Mané: “Amanhã não posso não Cumpade Amarelo (era assim que ele chamava meu pai), amanhã eu vou amanhecer doente. Cadê Cumade Amarela? Pergunte se não tem um cafezim pra mim”... 

Assim era Mané de Chica, condenado a uma longa vida de privações mas que cumpriu sem revoltas e com placitude a sua sentença. Tudo aquilo que (erroneamente) chamamos de sucesso ou sorte ou felicidade a vida lhe negou: beleza, carro, casa, trabalho diploma, dinheiro. Não teve amores, não teve uma esposa, não teve filhos, não ocupou nenhum cargo importante, não recebeu homenagens, não lhe fizemos jantares ou condecorações, não teve crediário, cartão ou conta bancária, não branqueou os dentes, não vestiu roupas de marca, nenhum perfume caro passou pelo seu corpo de mulato pobre. Que sofrimentos ou angústias a mente e o coração de Mané terão sofrido em noites de solidão e desamparo? Quantas vezes teria sentido o peso sombrio da depressão por não receber um abraço carinhoso, um beijo no rosto, um olhar mais amoroso? Se sofreu essas desditas que todo ser humano “normal” enfrenta, ele nunca demonstrou no seu dia a dia. E lá ia Mané, pelas calçadas nos saudando com seu jeito característico: “Ê cumpade... Ê cumade”... 

Não me lembro de alguém mais pobre e humilde que Mané, com tanta gente acompanhando seu enterro. Tuparetamenses de todas as idades e de todas as posições sociais estavam ali no Adeus a Compadre, de repente ou instintivamente cientes da sua importância humana. Também não me lembro de qualquer outro sepultamento com menos choro e lágrimas. Caberia com justiça na boca de Mané de Chica as palavras de Jesus: “Não chorem por mim, mas por vocês mesmos e por seus filhos”. Enquanto o caixão com o corpo de Mané descia à cova, me pus a imaginar a sua acolhida por Deus e me veio à mente a poesia Irene no Céu, de Manoel Bandeira: “Irene preta/ Irene boa/ Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu: - Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: - Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” 

Compadre Mané de Chica foi desses que não precisa pedir licença pra entrar no céu. 
*
Tárcio Oliveira
Tuparetama | janeiro de 2014 
PUBLICADA TAMBÉM EM www.tarcioviuassim.com

Um comentário:

  1. Pois é Tacio! E é assim que nós humanos somos. Tanto tampo tivemos para acarinhar ou acompanhar "cumpade Mané" mas.........foi preciso morrer para que chorássemos a sua partida. Sim chorássemos. Felizmente tive oportunidade de visitá-lo no Abrigo quando da minha estada aí em Tuparetama em 2013. Pois é, felizmente choramos ele e eu quando lhe cantei uma música que ele cantava quando eu era criança e ele carregava água para a minha casa, a pedido da minha mãe, como você disse, em troca de um prato de comida e uns trocados para os seus cigarros,penso eu. A tal música começava assim: "Eu tive um sonho de amor; que terminou nossa amizade; mas eu te espero um dia, pela felicidade eu arranjei outra mimosa flôr, com um perfume embriagador, .........la ra la la la.... como nosso amor" pois é, depois de tantos anos fui visitá-lo, cantei e ele chorou. Momento muito emocionante p'ra mim, mulher, que havia saído de Tuparetama criança, e, ao voltar, recordar momentos vividos e ouvidos na casa que que ainda hoje visito-a com amor e saudade quando vou à Tuparetama. Desculpe o desabafo. Encontrei sua mensagem no seu blog e chorei!

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