21/06/2011

VIDAS QUE VALEM UM CONTO XI – O do cantor

Era no tempo que todo mundo do lugar queria ser como Roberto Carlos. Ele queria ser mais que os outros, queria ser o Roberto Carlos. Sei lá que ano...? 70,72.

Tinha por espelho a parede do seu quarto recoberta de fotos e pôsteres das revistas enviadas por uma tia solteirona que morava em São Paulo. Tinha um violão marrom claro onde martelava suas composições de iê-iê-iê que ninguém queria ouvir mas que um dia fariam tanto sucesso quanto as do rei. Tinha os sapatos cavalo-de-aço, tinha o cabelo grande, tinha aquele tom nasalado da voz do ídolo, aprendido de tanto escutar com atenção no rádio e nos LPs, os que ele levava, com exagerado cuidado,  para tocar na radiola do bar da cidade, porque ali no sítio nada de energia elétrica.

O que restou dele, anos depois, como fiapo de fama, foi um nome rei. Não rei de música, como diz-se do artista original, mas rei entre os cachaceiros do lugar, fama conquistada desde quando se encontrava estirado sem sentidos nas calçadas, nas estradas, nas mesas dos botecos, a qualquer hora do dia, até depois da morte por afogamento, rosto enfiado numa poça de vômito.

Nenhum amigo lembrou de pedir para tocar Roberto Carlos na difusora da cidade, no dia do seu enterro. Como nos demais enterros do lugar, era a Ave Maria dramática e rouca que a boca de ferro da difusora espalhava pelo ar.

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Publicado originalmente no blog Raimundo Pajeu