23/05/2011

VIDAS QUE VALEM UM CONTO VI – O da viúva

Ela acudia as mulheres no parto, a qualquer hora do dia e da noite.
Enquanto amamentava cada um dos seus 14 filhos, serviu de mãe-de-leite para muitas outras crianças de comadres e vizinhas fracas de leite ou doentes do peito ou de resguardo quebrado.
Rezava pra cair o imbigo dos pagãozinhos e sabia dos remédios de sarar a feridinha.
Enquanto balbuciava palavras secretas e fortes, acompanhadas do agitar vigoroso de galhos de mato sobre a cabeça do doente ou sobre a espinha do animal amorrinhado, os males se desfaziam como fumaça no céu.
E cuidava com zelo da casa, do sítio, das galinhas do terreiro, dos bacurins no chiqueiro, dos filhos tantos, do marido caboclo epilético, das brasas acesas no fogão de lenha, dos potes sempre cheios de água da cacimba ou do barreiro, dos cravos e rosas aos pés das imagens serenas do santuário antigo: Santa Luzia, Imaculada Conceição, São Judas Tadeu, Santo Antônio, Divino Espírito Santo.

Um dia, isso foi no mês de Santana (nessa data o filho mais novo contava com cinco anos, o mais velho com 18) já à boquinha da noite, quando vinha da vila, da feira, o marido com seu bisaco nas costas, topou com o bando de Silvino. Ninguém sabia que eles estavam rondando pelas localidades, traiçoeiros. Por causa de uma questão antiga foi ali mesmo estrangulado, largado de travessa na estrada, o couro do bucho aberto de cima até as virilhas.

Quando ela soube da desgraça quedou-se feito uma doida. Nunca mais seria a mesma. Fechou-se, murcha. E lentamente, mês após mês, virou planta.

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Um comentário:

  1. -A descrição é nostálgica, quase vertiginosa. Um texto miuto bem elaborado, simples, inocente, vibrante e trágico como algumas coisas da vida.

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