03/05/2011

VIDAS QUE VALEM UM CONTO II – O da mulher falada

Ali entre a cerca de varas e a sombra do juazeiro, enquanto se sacudia a cada estocada rude do outro, no rebuliço de mãos, cabelos, suores e fungados, o pensamento voltou  - isso são horas de pensar besteira, mulher? reclama-se! O pensamento que teve logo cedo quando alimentava a porca e suas crias, o mesmo pensamento, aquele que nasceu na sua infância, desde que ajudava a mãe a dar a lavagem dos porcos e atrepada no chiqueiro admirava aquele animal sujo, o pensamento de que as mulheres também deviam ter nascido com tantos peitos e muito leite. E bem que devia, como os porcos, comer de tudo. Assim não estaria sofrendo tanto pra criar os quatro filhos, assim não teriam passado tanta privação, assim não estariam eles em casa agora esperando-a de boca aberta e barriga vazia. Assim talvez não tivesse amaldiçoado tantas vezes aquele bicho-nojento-cachorro-da-mulésta do marido que se foi há mais de oito anos pra São Paulo, pra trabalhar, pra mandar dinheiro pra casa e nunca mais voltou, nunca mais deu notícias, nunca mais.... deixando-a quase viúva, ali entre a cerca de varas e a sombra escura do juazeiro, agarrada à esperança da feira que virá pelos braços que lhe apertam agora, agarrada à raiva da vida, ao fogo da carne e ao desejo de desaforada vingança, desejando ser uma porca pra aninhar sob as tetas as bocas secas dos filhos. Até que cresçam e arrumem suas esposas e maridos, até que cresçam e sigam pra São Paulo como o pai, ou fiquem neste inferno como a mãe.

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