07/02/2011

A MATRIZ DE TUPARETAMA


    A cidade de Tuparetama é bem pequena, algumas dezenas de ruas cercadas por elevações como a Serra do Seixo, o Cruzeiro e os Serrotes dos Soutos. “Estamos plantados dentro de uma cacimba”, como informava em tom de brincadeira minha professora primária. No centro da “cacimba”, uma construção se destaca como mosca no leite. De qualquer direção donde se olha pra Tuparetama lá está ela, dominando a paisagem urbana, sua torre acima de todas as construções da cidade: A igreja do Sagrado Coração de Jesus, matriz da Paróquia de Tuparetama. 

    Estamos acostumados a sua presença, pedaço indispensável do corpo da cidade, como o nariz do corpo humano, por exemplo. Algo que se vê, se admira e depois se esquece, exceto quando se trata de um nariz de ‘muita personalidade’, o que não é o caso da nossa igreja. Dei de olhar pra ela (logo eu que sou seu vizinho desde recém-nascido e a vejo todos os dias) com outros olhos agora, pois recebi como sugestão de encomenda de um amigo de São Paulo uma tela sobre Tuparetama [*]. E me toquei que nunca havia representado a igreja em nenhum dos meus trabalhos de desenho e pintura até hoje.

    O nascimento da Igreja Matriz de Tuparetama passou por uma gestação demorada, como de todas as igrejas do mundo. Começou com uma pendenga sobre o local da construção. Como já tínhamos a capela do povoado  - no local onde hoje se situa a Rua Cel. Manoel Benedito-, sugeriram sua reforma e ampliação. Mas era uma empreitada quase inviável, por causa da matéria da capela: taipa e cupins. E assim, antes do início da construção da nova igreja, fez-se o primeiro grande dano irreparável ao patrimônio histórico e cultural de Tuparetama com a demolição da Capelinha de Bom Jesus. 

    No dia 17 de outubro de 1941 às cinco horas da tarde reuniu-se uma comissão para estudar a possibilidade de remodelação da capela. Avaliada a situação, sobretudo a precariedade do seu alicerce, a comissão decidiu por unanimidade dar início às atividades de construção de uma igreja nova no lugar mais conveniente, sendo para isto formada a primeira diretoria dos trabalhos, presidida por Adelino de Souza Leite, tendo como tesoureiro Francisco Zeferino Pessoa e secretário Domingos Siqueira e Silva. Entre os Conselheiros, João Venâncio de Aragão; Pedro Leite de Souza; Francisco Chaves Perazzo; Luiz Perazzo Chaves; João Valdevino da Silva; Severino Jerônimo Sobral; José Perazzo Leite; Severino Góes Cavalcante; Elias Felipe Pessoa e Paulino José Antônio. 

    Demolida a capelinha, parte do seu material foi utilizado na construção da Igreja Matriz. As despesas da construção da nova igreja foram pagas em sua maior parte com as rendas obtidas das muitas atividades promovidas pelos católicos: rifas, prendas, leilões, pastoris... Os donos dos grandes rebanhos de gado também doavam animais ou quantias em dinheiro.

    A última empreitada de serviços foi feita com Argemiro Pereira, mestre de obras da cidade de Tabira. As obras da torre e instalação elétrica foram concluídas em 24 de agosto de 1963. A calçada e a caiação do prédio ficaram prontas em 18 de fevereiro de 1964. O sino custou 400 mil réis, dinheiro obtido através de doações dos fiéis, comerciantes e políticos. O relógio da torre foi doação de Francisco Zeferino, em 1984. A cruz iluminada no topo foi doação do prefeito Pedro Tunu em 1985. 

    A imagem do Sagrado Coração de Jesus com cerca de 50 centímetros, utilizada segundo alguns na primeira missa celebrada no povoado, foi doada à capela em 1913 por Antônio Vicente Gomes.  A imagem do Sagrado Coração de Jesus que se encontra agora no altar central da Matriz, com cerca de 150 centímetros e de braços abertos qual Cristo Redentor foi doada pelo deputado Valfredo Siqueira.  A igreja possui também outras imagens, nos altares laterais.

    A imagem de Nossa Senhora dos Desterros foi doada em 1926 pelas senhoras Francisquinha Venâncio, Clara Véras e Ritinha Gabriel em pagamento de uma promessa para "desterrar os revoltosos, jagunços e bandidos que revolucionavam a região". Segundo os mais antigos, a comunidade considerou de muito êxito tal promessa, pois “com a chegada da imagem da santa, eles se afastaram da região!”(sic). A imagem de Imaculada Conceição (pequena) foi adquirida em 1942 com recursos doados pela comunidade e a imagem grande foi doada por Doralice de Vasconcelos Pessoa. As imagens de São José e São Sebastião foram doadas pela família Teixeira do Sítio Jardim; a imagem de Santo Antônio foi doação de Mocinha Aleixinho esposa do primeiro farmacêutico da localidade, Seu Aleixinho.  O grande crucifixo sobre o altar central é doação de Adelino de Souza Leite. Nossa Senhora das Graças, doação dos dois grupos da Legião de Maria em 1988. A imagem mais recente é a do Senhor Morto, em tamanho  natural, doação feita pelo então prefeito de Tuparetama, Vitalino Patriota.

    Eis, pintado com essas poucas linhas um breve esboço, esqueleto de biografia e radiografia da nossa Matriz. Porque às vezes minhas imagens não valem nem por cem palavras.

[ *]Texto publicado em 2007 - publicação atual com algumas alterações.