23/12/2010

VIDAS QUE VALEM UM CONTO VII – o da moça da bicicleta

Quando o caminhão pegou a menina ela corria pela estrada com a bicicleta Monark ano 86.
Nove ou dez horas da manhã, ela ia para a cidade com uma encomenda da tia.

Tinha deixado de ir para a escola porque desistiu do ano. Para ajudar os pais no roçado: muita chuva em março e abril, precisavam de todas as mãos da casa e de todas as horas do dia no trabalho da lavoura, para aproveitar o inverno.

Foi assim, com o lucro de alguns sacos de milho, que ganhou sua bicicleta.

Da cabeça estourada pelo pneu do automóvel sangue e miolos misturaram-se com insistência à terra, sua sina, seu fôlego curto.


imagem - obra de Iberê Camargo / DAQUI

08/12/2010

VIDAS QUE VALEM UM CONTO [ VIII ] – O do casal

Libório, um corpo que o tempo corrompeu, espia as ancas de Quitéria refletidas no alumínio polido da bacia, colocada no centro do quarto. O centro do seu universo.

As ancas carnudas de Quitéria. Os peitos cheios de Quitéria. O rosto sério, ausente, de Quitéria. Os cabelos presos no alto da cabeça, em coque, de Quitéria. As mãos firmes e determinadas, de Quitéria.

Os braços potentes de Quitéria, para sustentá-lo e conduzi-lo no percurso diário de todas as noites: beirada da cama, de lá para o fundo da bacia com água morna, de lá para as toalhas secas, de volta para a cama, de bruços para receber as compressas, a pomada e os supositórios.

Precisam escrever para o filho. Dizer que os remédios estão no fim. É bom quando o trimestre se vence e oferece os motivos para a carta. Escrevem frases cheias de loas, lamentos e bênçãos para o menino que trabalha na capital e abastece a farmácia caseira, juntando à remessa periódica o bilhete com letra de doutor: abraços, saudades, me abençoem.

Agora Quitéria deitada ao seu lado já dorme, uma parede morena, carne inerte sobre a cama. Libório não dorme, espia a luz da lua entre as brechas do telhado, escuta o mato, os grilos, as gias, os animais no curral, o vento. Quer rezar mas não se leva à serio. Quer chorar, não sabe. Dana o dedo na bunda, de vez. A dor de corte, de faca, arranca o grito. O sangue suja o pijama, o lençol.

O grito acorda Quitéria, é assim que recebe dela outros minutos de atenção no meio da noite.

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