29/11/2010

VIDAS QUE VALEM UM CONTO X – O DA MULHER DO BECO

Tinha nome de santa, Maria da Glória, mas era nosso arquivo à mão para palavrões e xingamentos.

A gente descia em bandos pela ladeira do beco onde ela morava - num quartinho de aluguel - e cada um batia na porta gritando: Maria Boca Porca! Maria Mão de Onça!

No final da ladeira aguardávamos, platéia de comédia, que ela saísse gesticulando com o braço são, o outro pendido como uma tira sem vida, onde se via a mão fechada e virada para o cotovelo, lembrando a pata do felino. Ninguém sabia mais palavrões que ela, ninguém dizia mais nomes feios por segundo que a pobre puta de cintura larga, pernas finas, cabelos sem penteado. Se praga pegasse, nenhum de nós estaria vivo para relembrar aqueles momentos de crudelíssima diversão infantil.

Antes de partir, jogávamos pedrinhas com as mãos e com baleadeiras na santa rapariga do beco, fazendo com que ela voltasse ao quartinho, gritando de lá outro rosário de palavras novas, de nomes de doenças estrambólicas.

Que fim terá levado Maria da Glória, cuja lembrança hoje inunda meus olhos de lágrimas?

[]

imagem DAQUI

2 comentários:

  1. -Fiquei emocionado. O texto é cruel e ao mesmo tempo encantador, nos leva a reflexão, nos faz sentir o quanto somos estúpidos, inocentes e pouco conscientes daquilo que fazemos. Definitivamente um dos seus melhores textos!

    ResponderExcluir
  2. uummmm...
    sutilmente, em segredos, descubro teus segredos escritos. eu nem sabia q guardavas escritos assim tão secretos... tão bons...
    mas estou aqui tb p tentar saber ond estão as ilustrações d meus poemas q propomos ser parte d uma pretensa parceria... em breve te ligo e quero te ouvir dizer-me que ainda estão intactas, ambas: ilustrações e parceria.
    bj grande.

    ResponderExcluir