22/11/2010

VIDAS QUE VALEM UM CONTO – IV: O DO DESGOSTO

Em junho vai fazer cinco anos da morte de Eliezer. Ele se jogou da Pedra-do-Chapéu, rocha de mais de quatro metros de altura, no cume do serrote ao pé da sua casa velha.

Quando o encontraram estava com o rosto atolado numa poça de sangue e barro, pescoço quebrado, braços e pernas desconformes, formigas nele todo. Os vizinhos de sítio estranharam o silêncio (Eliezer nem aboiou hoje... nem um pio a gente andou escutando dele hoje) a ausência prolongada, o feijão esquecido na panela, no fogo, espalhando cheiro de queimado até longe, nas redondezas.

Quando veio a morte de Eliezer eu estava com 13 anos de idade, mudando a voz. (Vai moleque! Cuida em crescer! Tá virando homem! Riáh, riáh, riáh!) dizia espalmando a mão grossa sobre minha cabeça quente do sol, com uma risada grave e amiga. Uma vez, uma vez somente confessou a saudade e o desgosto: (Se meu filho tivesse aqui ia ter a tua idade, era pra ser como tu....). Eu sabia desde criança, porque todos falavam como de um segredo de morte, que a mulher fugira com um parente de Eliezer, a criança ainda nos panos. (Uma mulher dessas! Coitado do Eliezer! Tá se vendo que nem o filho era dele, só podia ser de outro). Com essas sentenças encerravam a narrativa da desgraça.

E Eliezer nunca mais trouxe mulher nenhuma pra dentro de casa nem voltou a falar no assunto. O pessoal, por respeito e até vergonha, nem falava do acontecimento da traição na frente dele.

De volta da escola eu parava na casa velha. Ouvia estórias que ele contava como ninguém ali sabia, enfeitando, imitando a voz dos bichos, arregalando os olhos, encerrando com gravidade num ensinamento moral. A gente tomava um café forte e grosso, mal coado, na sala somada das cantigas do rádio, único luxo numa prateleira da parede. Eliezer se admirava e se ria das mudanças que eu apresentava tão depressa, quase todo dia - espinhas, buço, tronco largo, cabelo nas pernas.... (Ê danado! Tu vai ficar homem ligeiro!). Fui percebendo que havia um contentamento certo com uma dor escondida nessas palavras, nesses agrados, um querer de pai com a gente, sem poder.

E foi assim: tanto quanto eu crescia e mudava de menino em rapaz, mais a gente ia ficando afastado, menos amigo. Quanto mais eu mudava pouco parava na casa de Eliezer, menos ele se alegrava comigo, menos conversa, mais exposto o olhar molhado, doído.

Vai fazer cinco anos, desde aquela tarde quando eu voltava da escola e avistei o tumulto do pessoal em redor do finado, que deixei de usar calção. Disse em casa que não ia mais usar roupa de menino, só calça comprida. Como um homem.

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