21/11/2010

TEATRO INACABADO I - Monólogo da perversão

SALA OU QUARTO LÚGUBRE. O ATOR EM CENA ENCARA SEUS FANTASMAS INTERNOS E CONVERSA COM ELES:

ATOR: Nenhuma pausa, nenhum significado. Eis um resumo do nosso tempo. Eu não sei como você chegou até aqui, você não sabe porque estamos aqui agora, mas... finalmente nos encontramos. 
(Exibe um utensílio transparente, com líquido vermelho )
Veja isto. É sangue. Quanto há dele nesta jarra? Um litro? Talvez. Eu gosto de me cercar de informações que no final das contas não acrescentam nada de importante ao que já se sabe, ou não se sabe. Faz diferença se é um litro? Bem, assim, nesta quantidade e nesta vasilha, talvez nos convença de que é um suco, uma bebida para acompanhar um lanche qualquer. Mas é sangue, nem duvide disso.
(Para uma figura que entra vestida sobriamente)
Não! não entre agora, não entre agora! Saia, saia! 
(A figura sai de cena
Você não viu nada; ela não deveria chegar neste momento. Foi um equívoco da minha imaginação. Que isto também não nos surpreenda, nossa imaginação vive pregando peças. Sim, devemos concordar que nada é real. Nada é real, é uma verdade... 
(Uma lembrança súbita e excitante vem à sua mente)  
E quando eu gritava isso para ele, dentro daqueles olhinhos escuros, arregalados, tensos, úmidos... “Nada é real! Nada é real!”
(Ri abafado
Ele não entendia... porque a dor, mesmo falsa, é tão presente, tão intensa!
(Morde a mão e grita de dor, cospe longe a saliva com sangue. Retira um lenço do bolso, enrola a mão e daí a pouco o lenço está vermelho de sangue).
(Uma figura etérea, quase enfermeira - há também um quê de erótico no seu modo e no seu traje- entra e toma sua mão, iniciando um curativo
(Passivamente e um tanto satisfeito, ele declama enquanto ela trabalha)
“A base de uma grande amizade é a sinceridade. 
Essa verdade nos torna fortes 
e cada vez mais amigos, 
pois somos transparentes 
e refletimos exatamente 
o que estamos sentindo. 
Assim a gente se entende 
e se ajuda mutuamente” 
(Há ironia e sarcasmo no tom de voz e nas suas expressões ). 
Traiçoeira é a memória. Nunca decorei coisa alguma, nem mesmo data de aniversário dos amigos mais próximos e veja, desde que recebi essa mensagem no cartão que ele me trouxe, essa besteira sem sentido algum, ela grudou em mim. “A base de uma grande amizade é a sinceridade...” 
(Dá grandes risadas
A gente quer acreditar em tudo! Se há alguma serventia na história é para nos ensinar que não se deve acreditar no homem. E nós continuamos insistindo no contrário... . Pobres bestas é o que somos! 
(Escuro)
(Noutro plano uma figura adolescente entra, se despe. O ator observa com perturbação
Sim, é este o corpo mas eu não lembro o rosto... não este rosto, assim não, o mesmo talvez, mas outra expressão... (Ordena:)
Outro rosto! Outro! 
(Outra figura entra, foco no rosto
Não ainda não... outro, outro ! 
(Uma terceira figura, foco no rosto
Eu não o encontro, eu não consigo! Tem idade para ser meu filho! Tão jovem! Outro! Outro! Quem será? Onde ele está, onde? 
(Outras figuras entram, despidas, todos têm corpo juvenil, confundem quanto à idade algo entre a infância e a adolescência
Ele não está em lugar nenhum e eu preciso cansar de buscá-lo. Eu preciso parar. 
(No centro do palco ele abre um grande chuveiro e banha-se como está, vestido, enquanto as figuras somem à sua volta. Desmancha o curativo e lava o lenço).
“Somos transparentes e refletimos exatamente o que estamos sentindo...” 
(Súbito, noutro tom, enquanto desliga o chuveiro):
Eu preciso desaparecer! Eu preciso sair de onde estou, ir embora!
...
(continua)
imagem DAQUI
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