17/11/2010

PELAS RUAS DA CIDADE

[ Texto de janeiro de 2004 .  Publicado no jornal independente Gazeta do Pajeú ]

Passeio pelas ruas da cidade. Ainda mais deserta e silenciosa agora que chove e já passa das 23 horas. Nenhum cachorro para latir, nenhum galo que cante, nenhuma risada de roda de conversas na praça. Eu somente e a chuva. Eu, minha solidão, o frio e a chuva. Observo os reflexos de luz encarnada na água sobre o calçamento, essa luz nova que a Celpe está colocando em todos os postes da cidade, como é que se diz? De mercúrio? Lembra o lume de candeeiro apesar da forte claridade. Finalmente a empresa decidiu iluminar a cidade, penso, nem contente nem alheio, depois de nos deixar um bom tempo na penumbra. 

Vago pelas ruas e meu pensamento vagueia assim, procurando qualquer coisa pra não desabar, até as atividades da Celpe servem neste caso. Seguem comigo a saudade que percebo alojada lá no fundo da alma, num tempo inconsciente, saudade ou lembrança talvez de um tempo passado e há séculos distante, assim frio, úmido e sentimental...  seguem comigo esta saudade antiga e o gosto presente de um beijo que não provei. A boca estava ali, a dez centímetros da minha, a vontade era todo eu, podia ter usado a força e roubado o beijo. Tive receios, fui racionalizar, taí...nenhum covarde vive feliz. 

Paro em frente a lojinha do Boticário, sento na parede de um dos canteiros da praça molhada e fico olhando a vitrine que dorme. Dormem os perfumes e maquiagens guardadas lá dentro, fantasia e desejos acessíveis a tão poucos... dar-lhe um presente daquela loja seria uma outra tentativa de agradar e quem sabe conquistar  o beijo. . . as meninas da loja, sempre bem arrumadas, cheirosas, atenciosas e por isso mesmo supra-sertanejas não entenderão meu pedido: " Eu queria encontrar um perfume como o que está aqui, na memória de antigamente, que a mente ainda sabe qual é, mas o nariz nem sente". Deixemos as meninas do Boticário em paz, Iara com seus encantos, Dedé com seus outros tantos... também estarão dormindo agora. 

Eu sozinho na rua, levanto e sigo, meu nariz começa a gotejar, as orelhas ardem, dos olhos as lágrimas misturam-se à chuva. Enquanto sigo em círculos vem à mente a lembrança de um conto de Caio Fernando Abreu em “Morangos Mofados”, de um cara que passeia atormentado pela chuva com uma bebida sobre a capa e diante da porta fechada – seu destino final- bate, bate, bate sem resposta, e sem parar.

[ com algumas alterações e correções em novembro de 2010 ]
imagem DAQUI

Um comentário: